segunda-feira, maio 02, 2016

Ele Fal(h)ou: Depoimento

 Por Pedro Olaia
Fotos: Uirandê Gomes






















“Porque o mundo diz: ‘Tu tens necessidades, satisfaze-as, porque possuis os mesmos direitos que os grandes e os ricos. Não temas satisfazê-las, aumenta-as mesmo’. Eis o que se ensina atualmente. Tal é a concepção deles de liberdade. E que resulta desse direito de aumentar as necessidades? Entre os ricos, a solidão e o suicídio espiritual; entre os pobres, a inveja e o crime, porque se conferiram direitos, mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades. (Dostoievski, Os Irmãos Karamázov)



E como eu havia oferecido este trabalho de performance na beira da ufpa para mamãe Oxum, pontualmente as 17h, como marcado para iniciar a performance, a chuva arriou e parou de chover quando a performance acabou. 

É incrível como nossos corpos se conectam com outras dimensões que muitas vezes não temos noção quais sejam, mas deixamos estabelecer-se essa conexão porque é gostoso pisar em solo nunca antes pisado com os olhos fechados, dá uma sensação boa de nervosismo misturado com medo misturado com fé misturado com o por acaso que não acontece, pois o acaso está escrito em alguma dimensão e quando conectamos nossas energias com a energia do lugar conseguimos vibrar de tal forma que o aparente erro na verdade é acerto, e tudo que fazemos concorre para o bem daqueles que amam. 

O trabalho de performance que desenvolvi hoje, 12 de abril de 2016, iniciou em 2008, na beira da UFPA, naquela época, lembro q eu estava muito incomodado com a necessidade da prefeitura de Belém de se acabar com tantas árvores para se alargar a Av. Duque de Caxias, e pq sempre é necessário decepar todas as arvores da Av. 25 de setembro e deixá-las só no tronco na justificativa de "aparar" os galhos em excesso, e sinceramente nunca vi galhos em excesso naquela via toda bosqueada, somente a falta de galhos e o sol escaldante depois de uma poda predatória realizada por funcionários que provavelmente nunca tiveram alguma instrução sobre como cortar os galhos que atrapalham a fiação pública sem afetar toda a árvore. 

Na mesma época eu estava lendo Dostoiévski, “Os Irmãos Karamazov”, e em certo trecho do livro um sábio religioso admoesta seu discípulo e lhe fala a respeito das facilidades criadas pelos homens e quando que estas facilidades se tornam dependência e escravidão ao próprio ser humano que as criou. Ao ler o trecho do livro rapidamente associei a tantas coisas que nos dão uma aparente liberdade, mas na verdade nos levam a escravidão, coisas como por exemplo um carro e a dependência/prisão em que o seu proprietário se encontra. O mestre na obra de Dostoievski, nao fica só nesta observação, e relata ao seu discípulo: “Um ‘campeão da idéia’ contava-me que, estando na prisão, privaram-no de fumo e que essa privação lhe foi tão penosa que quase traiu sua idéia para obtê-lo. Ora, esse indivíduo pretendia lutar pela humanidade. De que pode ser ele capaz? Quando muito de um esforço momentâneo, que não sustentará por muito tempo. Nada de admirar que os homens tenham encontrado sua servidão em lugar da liberdade, e que em lugar de servir à fraternidade e à união, tenham caído na desunião e na solidão, como modizia outrora meu visitante misterioso e mestre.” 

O livro e em especial as páginas XXXX me tocaram profundamente, e pensei em fazer uma ação na 25 protestando a favor das árvores cortadas. E é claro que não foi nada como havia planejado, pois o planejamento serve para nos dar suporte para nossas ações, mas na hora, no momento vívido do suspiro poético, o planejamento cai por terra e o improviso divino nos banha de felicidade e ações belas onde muitas vezes me emociono, como por exemplo hoje em certo momento quando caí de costas, de propósito para sair de um espaço menos iluminado e ir em direção ao rio e próximo a iluminação dos postes que iluminam a beira da UFPA, pensando racionalmente na visualidade da cena, ao mesmo tempo que caí com o cuidado de não me machucar, fui surpreendido por uma mão estendida que me levantou do chão. Uma certa pessoa que estava na capela (a grande oca na beira da UFPA é chamada de capela), sentada conversando e naquele momento assistindo ao trabalho, se emocionou com a ação e me juntou do chão, e nesse instante toda a racionalidade que coloquei na percepção corporal do espaço e da queda foi por água abaixo e eu me emocionei e chorei, ao estender-me a mão senti que nossos corações estavam próximos, e que a poética de toda a cena tinha alcançado um de seus ápices e abriu-se em mim um rio de emoções coberto de uma chuva fina, da mesma forma como estava o tempo/clima na beira naquele momento. 

Em 2008, incomodado com as árvores decepadas da 25 e a ameaça delas serem exterminadas, e ainda com a Duque sendo duplicada, as arvores derrubadas indo embora, o skate park findando, e no lugar das antigas mangueiras algumas palmeiras sendo plantadas, e a prefeitura chamando de “corredor ecológico” sua ação desumana e fora de um pensamento preocupado com o meio ambiente, e eu ainda lendo Dostoiévski, falei de minhas angústias para Mauricio, meu parceiro amigo, desabafei com ele a respeito da quantidade de lixo jogada no chão, nas ruas da cidade, propus pra ele uma imagem cênica que eu vislumbrava, onde construíamos uma personagem que tinha uma só perna de pau e iria andando enquanto daria o texto, em movimentos de subir e descer como que caindo galhos e árvores desabando o verde e o texto do Dostoiévski (talvez alguém já tenha feito realmente isso, pois a ideia me ocorreu em 2008, e ainda hoje acho a imagem linda). Quando falei a ideia para Mauricio, em meio a conversa frenética ele viu muletas ao invés de uma só perna de pau, e vimos asas, um ser com asas pesadas, incapaz de voar, feitas de muletas. Foi então que propus ao Mauricio que a personagem seria um ser místico rua que fosse dizendo este texto corporalmente sem a necessidade de falar, dizer em palavras o texto de Dostoievski, mas a partir de um diálogo na essência do texto externalizando meus incômodos com a produção de lixo, a derrubada das árvores, o descaso com o meio ambiente, em ações corporais traduzir tudo isto sem a necessidade de um texto pronto.

E talvez a imagem deste ser com asas quebradas, de muleta tenha surgido da imagem do conto de Gabriel Garcia Marquez “Um Senhor Muito Velho com umas Asas Enormes”, que tínhamos lido juntos lá no começo (para mim) de tudo, em 2001/2002, e nos apaixonamos juntos por uma poética tão delicada de um anjo caído e velho que passou meses convivendo com uma família que não lhe reconhecia como anjo, mas como um animal, uma grande galinha velha, que vivia junto a outras no galinheiro. Foi a partir da performance Ele Fal(h)ou que me indaguei sobre o que produzo de lixo todos os dias e fiquei muito indignado, e me incomodei muito assim como também as pessoas no momento da ação performática se indignam com minha atitude e realmente se incomodam de tantas formas.

Algumas chamam muito a minha atenção como, por exemplo, a reação do cara em Santarém Novo, quando lá fui a primeira vez participar do XII Festirimbó fiz esta ação sendo que não levei as muletas, mas levei um crânio de boto que coloquei na cabeça e este ser mistico rua nesta performance não era um homem pássaro de asas quebradas mas sim um homem boto, que catava o lixo da beirada do rio, que por sinal era muito, e colocava dentro das grandes lixeiras que lá estavam, coisa que a prefeitura do campus da UFPA deixa a desejar, fora muitas outras coisas onde vê-se que a universidade pública está visivelmente abandonada. Em Santarém Novo-PA um senhor se incomodou muito e falava bem alto próximo a mim me questionando coisas como quem era eu para me meter nos assuntos da cidade, e o por quê de minha atitude se eu também fazia a mesma coisa e poluía, pois todo mundo faz e vez ou outra joga um lixinho na rua, ou em outro lugar, quem era eu que vinha de outra cidade para criticar a forma de sobrevivência no meio ambiente deles, quem era eu pra se incomodar com tanto lixo se na verdade todos produzimos muito lixo e jogamos em algum lugar por aí. 

Esse senhor me tocou muito neste dia, porque ele entendeu tudo e nada nesta ação que denomino de Ele fal(h)ou, por ao mesmo tempo Ele, o profeta, ser misitco falou: “aonde irá aquele prisioneiro das necessidades inumeráveis que ele próprio inventou? Na solidão, preocupa-se muito pouco com a coletividade. Afinal de contas, os bens materiais aumentaram e a alegria diminuiu.”, e também Ele, o homem falhou com sua responsabilidade com a natureza e cada dia mais se afasta de sua conexão com a terra, com os animais, com o rio e com o ar. Todos meus questionamentos de re-existir em nossa sociedade consumista vêm à tona e sofro pensando que onde desperdiço meus próximos se alimentam e sempre me pergunto que local "apropriado" para se jogar o lixo é este em que descarto quilos de material por semana? É muito triste perceber que parte da ilha do Combu que está na frente do lixão do Aurá já está com o rio totalmetne poluído e impróprio para o banho. Sofro mas também vislumbro esperanças de dias melhores como rolou hoje na ufpa, ontem na verdade – pois já se passou da zero hora do outro dia há muito tempo –, o incômodo da pessoa que me levantou do chão quando caí me fez chorar. Já disse isso e repito, pois foi muito lindo porque por momentos perdi totalmente o chão e senti que havia algo mais que sublime naquela ação e seu jogo cênico; a sensibilidade que vem de supetão é a coisa mais bela e velada que podemos experienciar, e acho que é pra isso que o artista faz um trabalho, é para no momento da entrega sentir que seu corpo já não flutua mais nas nuvens, ele já está no espaço navegando até pelas matérias escuras e energias escuras existentes e inexistentes também. Há momentos na ação que a sensação é que já até não sou eu, mas outras energias circulam pelo meu corpo e me transformo em pássaro sapo homem água amor solidão fúria desespero ternura lixo adoração louvor pena choro chuva água água rio corrente atravessa só o incômodo no outro e se manifesta em mim de tantas formas. 

Desde meu primeiro trabalho, “O Barato é Aqui!" em 2004 que dialogo sobre o consumismo, porém desta forma relacionado ao homem e o meio ambiente em que vive, é um processo em que espelho o outro de tal forma que todxs respondem incomodados e perdidos sem ver muitas soluções aos problemas expostos. Nós amazônidas fomos colonizados principalmente por portugueses, franceses e holandeses, e culturalmente no período da colonização legalizada estes povos transformavam seus rios em esgoto sempre jogaram o lixo no rio, o avanço da cidade grande pra eles era acabar com a floresta, construir prédios desconectados com a natureza e poluir jogando seu lixo em todos os locais, inclusive na rua ao contrário de nossos antepassados indígenas que viviam em grandes aldeias coexistindo com a natureza e o meio ambiente. Quando os brancos invadiram as terras de nossos antepassados eles invadiram e foram já derrubando todas as suas cores e construindo fortalezas em tons acinzentados de concreto. O fato de jogar lixo na rua fora das lixeiras é perceptível em todas as cidades na Amazônia, o povo foi educado culturalmente para poluir, para jogar lixo no chão, jogar lixo no rio e atualmente é muito difícil reverter toda essa cultura implantada por aqui por estrangeiros que não estavam nem aí pras cidades que estavam se construindo, pois estes só estavam preocupados em explorar as riquezas da mata e do seu solo. Índio algum faz isso de jogar lixo no rio, mas os povos europeus tradicionalmente tinham essa cultura e trouxeram pra cá, aqui em Belém construiram as casas de costas para o rio, e onde não havia casa havia porto e é assim até hoje, se ignora o grande rio e seus afluentes que rodeiam toda a cidade. 

Antigamente as casas jogavam seu esgoto todo no rio, e esta tradição permanece até hoje, a preocupação com o homem e o meio ambiente para o branco é algo devastador e infelizmente estamos onde estamos por termos o azar de sermos colonia e colonizados a ponto de mudarmos nossos hábitos primários harmoniosos com a terra e os rios para a única simples e pura preocupação com o lucro e consumo. Estamos presos a nossas necessidades e não conseguimos mais escapar, estou preso à toda esta produção desenfreada de lixo, ou até que ponto consigo evitar? Consigo evitar algo ou que tudo melhore e que a beira da UFPA não continue caindo mais e que não se jogue mais lixo nos rios e no chão? Se formos prestar atenção na colonização do sul do Brasil, que foi uma colonização de ocupação, de cuidado com a casa, tendo a terra como sua nova morada, vemos que se difere um pouco da Amazônia onde os novos moradores so visavam a exploração dos bens naturais e princialmente seus lucros, ou seja, nao era a terra para se refugiar da guerra como foi no sul, mas foi para explorar as iguarias da floresta exótica quente úmida com mistérios animais nunca vistos e plantas e pessoas nunca vistas que serviriam como objetos de pesquisa e exposição em museus, com seus usos e reusos, vendas, entre outras coisas. E como nada acontece por acaso quando em reunião nós quatro: eu, Mau, Heider e Leandro, decidimos fazer cada um uma performance antes do evento que estamos organizando, tendo assim 4 performances, e por isso dividimos os quatro pontos cardeais N S L O, e tiramos por sorte,em que a Cristina Costa sorteou os pontos e também sorteou um entre os quatro elementos: terra, água, vento e fogo.

 E assim por sorte novamente a água me escolheu, meu signo no zodíaco é de água, e veio oeste, onde o sol se põe, e a primeira lembrança da cidade e seu oeste foi das tardes bonitas quando estudava na UFPA e o sol se aninhava no horizonte tao lindamente e sempre tinham vários estudantes conversando e construindo mundos, e eu estudava de manhã e trabalhava na Prefeitura do campus e frequentava a beira e nessa época lá na beira tive muitas aulas de vida que sala nenhuma da UFPA me deu. Havia um bambuzal em frente ao Profissional e depois do bambuzal ainda havia um grande pedaço de chão e depois o rio imenso na nossa frente, e lá atrás desse bambuzal estendiamos nossas cangas sentávamos e íamos almoçar porque todos éramos "boias frias", pois levavamos nossos almoços em marmitas e comiamos la em pique nique e batiamos papo, descansávamos e voltávamos a nossos afazeres, e vi gradativamente esse espaço se acabar, a água do rio consumiu primeiramente a parte na nossa frente, e depois o espaço q sentávamos, as arvores foram caindo, e progressivamente o bambuzal também se foi e pouco tempo depois a água consumiu até a pista onde os carros passavam, sendo que essa região é uma das mais criticas da beira da UFPA, e na época que eu trabalhava na engenharia da Prefeitura como estagiário ninguém sabia exatamente explicar o que estava acontecendo, quando da primeira vez que a beira em frente a capela em um dia de chuva cedeu e caiu uma grande parte do quebramar que havia e onde sentávams a tardinha para ver o pôr do sol, escutar um vinil, trocar um trabalho artístico. 

Numa tarde com uma chuva torrencial a beira da federal pela primeira vez caiu, e ouvi alguém depois comentar que haviam estudos que diziam que a torre construída no meio do rio para atravessar a linha de energia elétrica para as ilhas estava desviando o curso da água e tornando a maresia mais forte na beira da UFPA, sendo esta entre outras suposições fundamentadas para que propostas de contenção do desabamento fossem aplicadas sendo que a prefeitura do campus fez uma barreira que em alguns meses novamente foi derrubada e até hoje o problema ainda nao foi resolvido e cada dia mais se perde o unico espaço verde que há entre os predios de concreto e estudo e o rio, e a impressão que se tem é que todos aqueles prédios um dia ruirão e também serão engolidos pela água.